(...) Outra vez te revejo,
cidade da minha infância pavorosamente perdida...
cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
e tornei a voltar, e a voltar.
E aqui tornarei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Álvaro de Campos